Diálogo interreligioso
Por Tony Vilhena[1]
Seguindo seu estilo poético, Rubem Alves abre sua obra “O suspiro dos oprimidos”[2] com as seguintes palavras sobre religião: Religião é tapeçaria que a esperança constrói com palavras./ E sobre estas redes as pessoas se deitam./ É. Deitam-se sobre palavras amarradas umas nas outras. / Como é que as palavras se amarram? / É simples. Com o desejo. / Só que, às vezes, as redes de amor viram mortalhas de medo. / Redes que podem falar de vida e podem falar de morte./ E tudo se faz com as palavras e o desejo.
Religião é rede. Metáfora perfeita! Ainda mais Em Belém do Pará, onde é clássica a cena de pessoas se embalando numa tarde qualquer de chuva. A rede também é sempre presente nas embarcações “prenhas” de gente que singram os caudalosos rios da região. Guardam o sono dos “curumins” nas aldeias mais distantes. Ou estão esticadas entre as lonas pretas que abrigam as famílias camponesas que entre uma marcha e outra na luta pela terra param para um breve repouso. Com seu colorido, diversidade, praticidade e incontestável utilidade as redes realmente podem expressar poeticamente a pluralidade e importância do universo religioso.
No Fórum Social Mundial 2009, ocorrido em Belém, foi garantido um espaço, a partir da articulação e reivindicação das representações religiosas, chamado de Território Interreligioso. Neste Território, coordenado pelo Comitê Interreligioso do Pará, uma rede tomava conta do centro contendo um globo terrestre no seu interior. Eram as religiões demonstrando, unidas, seu compromisso de cuidar do planeta. Mas como diz Rubem Alves. O que foi tecido para ser proteção, resguardo e descanso pode se tornar “mortalhas de medo”, uma ameaça. Até mesmo puir, não oferecendo mais as condições necessárias para uma deitada segura e tranqüila. Revertendo o aconchego em incômodo.
Hoje, na maioria dos conflitos que temos no mundo, o pano de fundo da questão religiosa ainda figura no cenário. Seja nas guerras ou nas relações interpessoais os ataques e violências levados a cabo por motivação religiosa ainda permanecem ferindo, ofendendo e até matando em nome de Deus. O prefácio da edição de aniversário dos vinte e cinco anos da Declaração para Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação com Base em Religião ou Crença, diz que passados os anos da proclamação da citada Declaração “ainda observamos diversas situações de conflito – guerras, atos de terrorismo, exclusão e outras manifestações de intolerância – justificados por motivos religiosos, conforme pode ser visto diariamente nos meios de comunicação”[3].
As regiões, de forma geral, que vivem em discursos, pregações e canções falando “do” e “com” o transcendente, ainda têm sérias dificuldades de aproximação e interação entre elas próprias. Embora constatemos uma pluralidade no campo religioso brasileiro, ainda são muito tímidas as iniciativas de compor ações ordenadas das religiões em prol da sociedade. Pois a pluralidade, entendida como presença de várias religiões, nem sempre consegue convertesse em pluralismo religioso, ou seja, capacidade de reconhecimento mútuo entre as religiões para estabelecerem relações de respeito, podendo avançar mais adiante para realização de trabalhos em parceria, derrubando os muros das hostilidades, superando as propostas ingênuas da tolerância passiva e estabelecendo um diálogo sincero e construtivo.
O diálogo interreligioso é sustentado por dois conceitos fundamentais: flexibilidadee dialogicidade. Sendo a flexibilidade a busca das religiões em responder à altura todas as demandas das pessoas que a procuram. Já e dialogicidade tem haver com que velocidade a religião se posiciona diante das mudanças sociais em curso. Com a flexibilidade e a dialogicidade a religião responde interna e externamente aos “dilemas” mais atuais que lhe são impostos pelo curso da sociedade[4].
O diálogo interreligioso, desta forma, além de um apelo ético pela pacificação de um mundo em convulsão, é um ordenamento às religiões que pretendem fugir do obscurantismo e dos fundamentalismos ainda vigorantes (“só meu Deus salva”, “a verdade é minha”, etc), fortalecendo, assim, com coerência, os fios de suas redes de crenças, símbolos e práticas.
[1] Cientista Social; Coordenador do Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs (CAIC)
[2] ALVES, Rubem. O suspiro dos oprimidos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1984.
[3] Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e Ágere Cooperação Advocacy. Declaração para Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação com Base em Religião ou Crença. 2007.
[4] SANCHEZ, Wagner Lopes. Pluralismo religioso: as religiões no mundo atual. São Paulo/; Paulinas, 2005.