Uma igreja mais que centenária - História

belm antiga2A reunião de organização da igreja em pessoa jurídica se deu em 16 de fevereiro de 1906, porém a data de fundação da igreja, onde ela de fato começou a existir, fruto do amor e dedicação à obra de Deus, de um grupo de irmãos e irmãs, foi em 18 de junho de 1905. Hoje temos então 105 anos de existência e história.

Os primeiros anos de atividades da igreja não foram fáceis. Não havia pastor da denominação residente na cidade. A reunião de fundação e organização jurídica foi presidida pelo Revº. Bento Ferraz, um dos fundadores da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB), residente na cidade de São Paulo. Mais de dois anos depois, a segunda reunião de Assembléia Geral foi presidida pelo Revº. Vicente Themudo Lessa, também fundador da IPIB e também residente em São Paulo. A igreja se reunia num local de condições desfavoráveis. O primeiro templo da igreja foi na Rua Antonio Barreto nº 48, hoje localização privilegiada e nobre da cidade, mas na época era um verdadeiro pantanal. Local de muito alagamento, sem luz elétrica, longe da modernidade, como os bonds e as belas construções daqueles anos. A casa estava em péssimas condições de funcionamento, não tinha janelas, colocando em risco até a saúde das pessoas que ali se congregavam, conforme discursos registrados em reuniões de Assembléia Geral.

A igreja foi se desenvolvendo, superando algumas dificuldades já aqui apresentadas, e em 3 de outubro de 1931 comprou o atual terreno onde foi construído o seu templo, na Av. Conselheiro Furtado[1].

Diante das contradições sociais, econômicas e a forte exclusão do projeto econômico e político da época, a Igreja Presbiteriana Independe de Belém, nasce apaixonadamente, conforme nos mostram os discursos registrados em atas, para proclamar a justiça, o amor, a verdade que procede de Deus.

A igreja ao chegar aos seus 50 anos de fundação passava por momentos de grandes dificuldades. Um dos maiores problemas foi a assistência pastoral (o último pastor efetivo e eleito foi o Rev. Aureliano Alves de Jesus em  31/12/1948). A igreja não tinha condições de sustentar um obreiro e estava se sentindo isolada ou excluída da jurisdição do seu presbitério. No período de 1950 a 1956, a igreja tinha pastores visitantes, que presidiam as reuniões de assembléia geral; como foi o caso do Rev. Jonan Cruz (Aracajú) e o Rev. Adiel Tito de Figueiredo de São Luis do Maranhão.

Na ata de Assembléia de 15/03/1953 (folha 5), presidida pelo Rev. Adiel Figueiredo, o Presb. Humberto Pereira Viana, usou da palavra nos seguintes termos:

“...tratou da atual situação da igreja de Belém, completamente sem vida por falta de obreiro e por não ter meios para mantê-lo; sem conselho devido a ausência de dois presbíteros; sem freqüência por causa do abandono de muitos; que o que se devia fazer seria fechar esta igreja entregando os seu bens ao presbitério, ou então, pedir providências para a melhoria do trabalho independente na Amazônia, cujo trabalho não conta com a ajuda das igrejas maiores”.

 

belm antiga 3Na mesma ata o Presb. Humberto Viana pede a alienação do harmônio (órgão) da igreja por 6 mil cruzeiros, por motivo do mesmo está se estragando por falta de uso. A igreja estava realmente desmotivada, sem acompanhamento musical nas liturgias da igreja e sem obreiro residente na cidade.

Em 1955 a situação da igreja piorou ainda mais. Na ata de 11/11/1949, o Rev. Aureliano de Jesus informa à Assembléia que a igreja possuía no seu rol de membros 45 adultos e 24 menores, porém em 16/10/1955, há o registro nesta ata que havia quorum para a reunião com a presença de sete membros, “pois o número de membros é de doze”. O que fez a igreja cair tanto em 6 anos? O fator claro de observação foi a ausência de pastor efetivo na igreja e outra o falecimento precoce e inesperado do Presb. Otoniel Tavares dos Santos, liderança respeitada e efetiva na igreja nos últimos anos. A prova é a trajetória ministerial do presbítero, que foi diácono, depois eleito presbítero e tesoureiro da igreja por alguns anos (a votação destes cargos sempre foi expressiva nas reuniões de Assembléia).

Diante deste momento difícil um grupo de nove membros procuraram alternativas de sobrevivência do trabalho independente em Belém. Uma das alternativas foi a convocação de uma reunião de assembléia geral em 18/09/1955, que registra o seguinte:

“Resolveram tomar a seguinte deliberação para o andamento dos trabalhos da Igreja, na atual fase em que não há um ministro da denominação para tomar os encargos pastorais da mesma: a) Reconhecer a necessidade de se prestar assistência pastoral à mesma Igreja especialmente agora dado o falecimento do presbítero Otoniel dos Santos, que se encontrava na direção dos trabalhos; b) Para tornar efetiva essa assistência deliberaram convidar o Reverendo João Batista da Silva, para tomar a seu cargo, especialmente os atos pastorais da mesma comunidade próprias e exclusivamente dos ministros como sejam: batismos, profissão de fé, Santa Ceia, etc.; c) Os pactuantes foram levados a esse resultado tendo em vista e inspirados no movimento de aproximação ou união dos dois ramos da Igreja Presbiteriana do Brasil. É assim uma antecipação desse auspicioso movimento; d) Visto que o arranjo acima esboçado tem a grande parte do tempo do pastor em referência, e acumula sobre os seus ombros maiores tarefas resolveu-se também, em compensação, que a Igreja Presbiteriana Independente, concorra, a título de manutenção pastoral, com a importância de Cr$ 500,00 mensais.” (folha 6)

 

Sem dúvida o gesto da igreja era ilegal, mas revela um pedido de socorro para a manutenção do trabalho. A atitude dos membros teve repercussões diante do Presbitério do Norte, geograficamente gigantesco. Na ata da reunião de assembléia seguinte (16/10/1955), presidida pelo Rev. Adiel Figueiredo, temos uma resposta do Presbitério:

“...O presidente informou que estava ali por ordem da Comissão de Superintendência que havia considerado ilegal a reunião anterior. E reteirava a promessa do Presbitério de enviar um pastor para a Igreja no princípio do próximo ano. Pois o Presbitério não queria perder o trabalho de Belém. Com a palavra o pastor João Batista da Silva, Pastor da Igreja Presbiteriana local expoz a sua intenção que era a manutenção da Igreja Presbiteriana a qual era de ajudar o trabalho e não de fazer proselitismo, evitando que o trabalho presbiteriana independente, sem pastor e sem presbíteros, viesse a cair posteriormente nas mãos de outras denominações. Quanto à ilegalidade da reunião o mesmo estava consciente, mas, que viesse por esse modo a haver uma reação dos meios independentes, lucrando a Igreja com isso. Por que se fosse por legalidade o trabalho ficaria sofrendo até que tudo viesse pelos meios legais. Resolveu-se então o seguinte: a) Que o Rev. João Batista da Silva fique como o pastor da Igreja Presbiteriana Independente de Belém até o fim de março. Tempo em que deverá vir pastor enviado pelo Presbitério do Norte...” (folha 7)

 

O ato “ilegal” dos membros e a parceria com o ministro da Igreja Presbiteriana foi positivo para a continuação da igreja. Em março de 1956 o Presbitério do Norte, reunido em Fortaleza-CE, resolve, então, enviar o Rev. Moacir Gonçalves Viana para assumir o pastorado da igreja. Rapidamente o trabalho começou a reagir normalmente e o desenvolvimento da igreja era visto claramente. Em 28/12/1957 o rol de membros já contava com 31 membros maiores. Porém, o fantasma dos antigos problemas voltaram a rodear a comunidade. Na ata nº 16, folha 14, de 31/12/1958, em Assembléia Geral, o Presb. Firmino Pereira Nunes faz a seguinte aclamação:

“...convida os membros da igreja presentes à reunião, a fazerem um abaixo assinado solicitando que o Presbitério não transferisse o reverendo Moacir Gonçalves Viana para outra Igreja, visto que Deus está abençoando a Igreja em Belém através de sue ministério, sendo que todos perante à Assembléia voluntariamente assinaram. Esse abaixo assinado é feito porque a Igreja teme a saída do pastor para outro campo devido a escassês de obreiros...”

 

belm antiga4O temor da igreja realmente foi confirmado. Em 1959 o Presbitério do Norte referenda o convite feito pela Igreja de Recife ao Rev. Moacir. Mas em 30/12/1960, há o registro na Ata nº 18, da primeira reunião presidida pelo Rev. Almir André dos Santos no pastorado da igreja; tendo como secretária “Ad hoc” a irmã Silvia Carneiro dos Santos, primeira mulher a secretariar uma ata de assembléia da igreja. O fato do Rev. Almir assumir o pastorado da igreja marca um tempo de solução de um antigo problema, ou seja, a ausência de obreiro efetivo. Que outros problemas surgiram? Como foi o desenvolvimento da igreja nos períodos seguintes?

A partir do início do pastorado do Rev. Almir as atas constam uma detalhada movimentação do rol de membros a partir de 1963. Foi um período de recebimento intenso de vários membros na igreja. Há registros de batismos e profissão de fé de várias pessoas. O que se percebia é que a igreja realmente iria, agora, se desenvolver na sua história. Mas não foi o que aconteceu. A igreja nunca teve uma reunião de Assembléia Geral com um número superior de membros presentes de 45. (nossa pesquisa foi até 1979). Em 1967 a igreja já não crescia como nos anos anteriores. Na ata de 21/04/1967 o Rev. Almir fazia o seguinte apelo ao Conselho: “...para se fazer visitas a todos quanto não estão freqüentando a Igreja, para se apelar aos mesmos crentes para que voltem a serem ativos nos trabalhos...”. Este tipo de apelo vai se repetir em outros anos com freqüência.

Este atestado pode ser explicado por alguns fatores que aparecem constantemente nos registros de atas do conselho. Por exemplo, a igreja sempre necessitou de campanhas financeiras, revelando que a arrecadação sempre se mostrou deficiente em virtude do baixo número de membros. No período do pastorado do Rev. Almir foi marcado por momentos de instabilidade em virtude de escândalos morais, desrespeito de membros com o Conselho, trabalhos de evangelização abertos e logo em pouco tempo fechados (como ocorreu no bairro do Guamá na residência do irmão Raimundo Terra em 1977), revelando uma morosidade da membresia no trabalho de evangelização e visitação. Os trabalhos abertos na Marambaia e Terra Firme sempre sofreram problemas de assistência por parte dos líderes e membros da igreja.

A história não serve apenas para aprendermos com ela (“História mestra da vida”), mas uma grande importância da história é a possibilidade de entendermos os processos ocorridos que contribuíram para a formação de nossa identidade. A igreja que somos hoje, não a recebemos pronta e acabada, ela é fruto de processo, erros, acertos, vitórias e derrotas. Nós todos hoje, como sujeitos históricos temos a responsabilidade e o desafio de darmos encaminhamento a direção que a história de nossa igreja deve desenvolver. Temos a responsabilidade e o desafio de transformar, corrigir, criar novos propósitos para a história de nossa comunidade que não para de ser escrita e desenvolvida.

Rev. Cláudio Lísias



[1] Fonte: Escritura Pública de compra e venda de um terreno à Avenida Conselheiro Furtado, sendo vendedores o Doutor Aleixo José Simões e sua mulher. O representante da igreja foi o Presbítero Pedro Alexandrino de Moraes.

Av. Conselheiro Furtado, 3085 Entre: Trav. Castelo Branco e Trav. 14 de Abril
Horário de Celebrações Quartas: 19h15min;   Domingos: 18h
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