Memória - Transcrição "Impressões de viagem", 1905

Impressões de viagem

Debaixo do Equador. No Pará

 

No número de O Estandarte, orgam presbyteriano independete, de 14 de setembro de 1905, traz os registros da viagem do Rev. José Mauricio Higgins à Belém em junho de 1905, onde organizou e fundou a Igreja Presbiteriana Independente em Belém. O texto fala da cidade, clima e quem eram os primeiros membros da igreja na época da sua fundação. Sem dúvida um importante registro histórico.

 

“O Amazonas! O maior rio do mundo! A corrente portentosa, que recebe tributários caudalosos, que só por si constituem rios importantíssimos! O Rei das águas doces, lançando-se cincoenta legauas pelo mar a dentro, conservando distinctas e inalteráveis as suas impetuosas correntes!

A Amazonia riquíssima, Eldorado fascinador, que seduz a imaginação e attrae o aventureiro pela cúbica do outro a correr como seiva nos seringaes! Terra das grandes florestas virgens, thesouro de infinita variedade, de madeiras de lei, onde, altaneiras, se erguem arvores collossaes! Habitação de uma diversidade extraordinária de animaes de toda a espécie, que povoam as mattas, cortam o espaço e enchem os rios! Eil-a ahi, a Amazonia magestosa!

Taes eram os pensamentos que me tumultuavam na mente ao entrar, no “Alagoas”, pelo vasto estuário do Amazonas, cujas praias não se avistam simultaneamente, semeado de ilhas de todos os tamanhos e fórmas.

No dia 10 de junho punha eu pé em Belém, florescente capital do rico estado do Pará. Procurou-me a bórdo o presado irmão Julio da Silva Rabello e no cães encontrei o irmão Gedeão Pereira.

Quem visita a cidade, logo percebe que a metrópole actual está sugindo da antiga capital. Aos lados das extensas e esplendidas avenidas da Nazareth, Idependencia, São Braz e São Jeronymo, luxuriantemente arborizadas e illminadas a grandes focos de luz electrica de arco, encontram-se ruas estreitas, sem calçamento e quase sem iluminação. Muitas barrcas, casinhas cobertas de zinco ou de palha, se acham em vivo contraste com a riqueza espalhafatosa de bellas casas e lindos palacetes.

Duas ou três praças chamam a atenção do visitante. O largo da Polvora, todo ajardinado, onde se ergue, ao centro, altíssima e imponente, a estatua da Republica; a praça Baptista Campos, jardim aprazível e alegre; a praça Nazareth, onde se realiza a celebre festa da egreja do mesmo nome; são alguns dos melhores logradouros da capital. O Bosque é digno de menção especial. É um bello parque que attrae grandes multidões, nas tardes calmosas dos domingos e dias feriados. É um pouco distante do centro urbano e lá se vae em bondes a vapor.

Possue a capital paraense bellos edifícios particulares e públicos. Salienta-se entre estes o grandioso theatro da Paz, de linda architectura, mandado construir pela municipalidade. Deve contar a cidade uns cem mil habitantes, mais ou menos. Hospedou-me o irmão acima referido, Julio da Silva Rabello. Comecei logo a extranhar o clima. O calor é terrivelmente suffocante! A gente estica o pescoço e abre a bocca em busca de ar, que não se encontra! Das onze ás três horas da tarde, o sol dardejante escalada, queima e tosta aquelle que se aventura aos seus raios de fogo! A transpiração é tão abundante que se torna necessário mudar roupa duas e três vezes por dia! É a plena zona tórrida, na grande intensidade de seu calor!

Dizem, entretanto, que Manaus e o alto Amazonas são ainda mais quentes!

Os cearenses são os bandeirantes do norte, os pioneiros e povoadores da Amazonia, os invasores dos extensos seringaes. Elles resistem ao rigor do clima melhor do que qualquer outra gente. A mortandade, entretanto, é grande entre elles também. O beribéri e as sezões contrahidas nos charcos onde nasce a seringa, cortam a vida áquelles que deixam o estado natal, á procura de recursos para a família.

Chegando ao Pará, comecei logo a pregar na sede de nossos cultos alli. Desejava procurar um salão publico bastante vasto para as conferencias, mas o abatimento de forças causado pelo clima me desanimou desse intento. Assim mesmo fiz quatro conferencias, em uma grande sala d’uma casa particular, arranjada pelo activo e presado irmão, Pedro Alexandrino de Moraes, que se esforçou de todos os modos por esse trabalho e teve a satisfacção de ver a sala sempre cheia.

Recebi no Pará em profissão de fé as seguintes pessoas: D. D. Catharina Cardoso de Moraes, Maria Ursula de Jesus, Anna dos Reis Moraes, Anna Paulina de Mello, Ricardina Maria do Espirito Sancto e Marcionilia Soares da Silva e os srs. Pedro Alexandrino de Moraes, Jonathas Propheta de Jesus, José Paulino Estumano de Moraes, Fortunato Antonio da Silva, Raymundo Floriano Carneiro, Benedicto Olympio de Amorim, José Joaquim de Souza, Amaro de Moraes, Jayme Banjamim de Moraes, José Candido Lins de Barros, Manoel Francisco do Carmo, Manoel Francisco da Silva e Leopoldino Porcino do Espirito Sancto.

Recebi também a adhesão do irmão Samuel Soares de Azevedo, membro em plena cammunhão da egreja presbyteriana synodal de Manaus.

Baptizei as seguintes crianças: Isabel, Nominanda, Henriqueta, Miriam, Izaura, Laura, Aura e Adalgisa.

Quatorze dos irmãos acima mencionados shiram espontaneamente da congregação do Sr. Almeida Sobrinho. Esse irmão era membro da Egreja Baptista, mas sahindo della arrastou comsigo algumas pessoas e fundou o que chamam a Egreja Christã. Mais tarde, elle mesmo, sem nunca ter sido ordenado, principiou  a baptizar e a celebrar a Sancta Cêa.

Com muita fouxidão guarda essa congregação o Dia do Senhor e entre as innovações introduzidas nota-se a das mulheres cobrirem a cabeça na occasião do culto.

Tendo essas quatorze pessoas voluntariamente pedido entrada em nossa egreja, eu lhes declarei que só por profissão de fé e baptismo poderia recebel-as, visto nenhuma denominação evangélica, ou, pelo menos, a Egreja P. Independente, reconhecer no irmão Almeida o direito de baptizar. Esses crentes, depois de alguma ponderação, concordaram plenamente com a minha opinião e depois de satisfactorio exame foram baptizados. As outras pessoas vieram do romanismo.

Conversando com os irmãos, achei conveniente organizar a congregação em egreja, o que fiz no dia 18 de junho de 1905, tomando a nova organização a denominação de Egreja Presbyteriana Independente do Pará.

No dia 21 do mesmo mez realizou-se a primeira assembléa geral que elegeu prebyteros os dedicados irmãos; Julio da S. Rabello e Pedro Alexandrino de Moraes e diácono o irmão José Paulino Estumano de Moraes.

No domingo seguinte foram esses irmãos solennemente ordenados, na presença da egreja que os elegera.

Uma segunda assembléa elegeu, no dia 28 de junho, o irmão Jonathas Propheta de Jesus, para o cargo de thesoureiro.

Assim conta o nosso presbyterio mais uma egreja, composta de 40 pessoas entre membros professos, crianças baptizadas e congregadas.

Entre os irmãos do Pará demorei-me vinte e cinco dias, procurando instruil-os na doutrina e animal-os no trabalho; guardo saudosas recordações desse tempo que lá passei.

Aprestava-me para começar a minha retirada do norte, quando recebi bello cartão postal colorido, com uma scena de campo e um rebanho de ovelhas, com os seguintes dizeres: “Não nos tendo sido pssível assistir, por completo, as conferencias que realizastes nesta capital, devido á hora em que dáveis começo coincidir com a que encerrávamos os nossos trabalhos diários, ousamos endereçar-vos este, rogando-vos a fineza de, na volta a esta cidade, proporcionar-nos o prazer de ouvil-o.

São Luiz, 13-6-905.

Alguns empregados do commercio”.

Com difficuldade tive de responder que não me era possível acceder a tão amável e generoso convite, pois me demorara demasiado no extremo norte da republica e os deveres de minha viagem, o trabalho em meu campo e o enfraquecimento de minhas forças exigiam meu regresso para o sul.

Mais uma vez eu me tornava devedor ao incomparável povo maranhense!

Despedindo-me saudoso dos irmãos do Pará, tomei logar a bórdo do “Manaus”, em demanda do sul, nos primeiros dias do mez de julho.

José M. Higgins.”

Av. Conselheiro Furtado, 3085 Entre: Trav. Castelo Branco e Trav. 14 de Abril
Horário de Celebrações Quartas: 19h15min;   Domingos: 18h
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